Nas terras férteis do Baixo Ampurdán, onde o tempo parece fluir com a serenidade de um rio, ergue-se uma morada que transcende o comum. A Casa 1627, nascida das ruínas do antigo Mas Geli, é uma ode à resiliência e à beleza atemporal da arquitetura vernacular. Aqui, a tradição se entrelaça com o presente, criando um espaço que dialoga harmonicamente com a paisagem que a circunda.
Ao chegar, o visitante é acolhido pelas fachadas de pedra que resistiram ao tempo, reminiscências de um passado que encontra seu eco no presente. A materialidade robusta se faz sentir, uma presença tangível que evoca a história do local. As paredes de concreto ciclópico, espessas e sólidas, sustentam a nova narrativa arquitetônica, enquanto abóbadas habilmente restauradas e introduzidas em concreto, conferem ao espaço uma sensação de continuidade com as tradições construtivas da região.
A cobertura de telha, sustentada por uma estrutura de madeira exposta, eleva-se com elegância, recuperando a altura original da antiga edificação. As vertentes contínuas, de norte a sul, esculpem um volume de simplicidade poética, um testemunho da habilidade em mesclar o antigo com o novo, sem rupturas desnecessárias.
Dentro da casa, a luz natural é convidada a participar da coreografia dos espaços. A cozinha, um salão de 100 metros quadrados, é onde a vida se desenrola com plenitude. Com um pé-direito duplo que amplifica a majestade do ambiente, este espaço se abre ao sul para o jardim e a balsa, enquanto ao oeste, as vinhas se estendem até onde a vista alcança, evocando a plenitude dos campos de Pals ao fundo. É um lugar de encontros e celebrações, de almoços prolongados entre amigos e degustações intimistas dos vinhos que nascem da própria terra.
O beiral em forma de "L" é mais do que uma extensão física; é uma conexão simbólica entre a casa e seu entorno. Voltado para o oeste, ele se torna um palco para os espetáculos diários do pôr do sol, enquanto ao sul, protege e expande o espaço da cozinha, mantendo uma relação íntima com o jardim ensolarado. Aqui, o pisar no solo é um ato de reverência à terra, uma dança entre a contemplação do horizonte e a vivência tangível do espaço.
As sequências espaciais, cuidadosamente orquestradas, guiam o olhar e os sentidos através de uma jornada que é tanto física quanto emocional. Do sul ao norte, a trajetória se inicia na balsa, atravessa o jardim banhado de sol, o beiral, a cozinha, e culmina na visão do Montgrí, majestosamente posicionado entre vinhas e áreas alagadas. De leste a oeste, a narrativa começa nas Ilhas Medas, avança pela fachada principal da antiga casa rural, e se desenrola através da porta de entrada, hall, cozinha, até encontrar o beiral, onde o sol se despede.
As paredes de concreto, vertidas em camadas precisas com agregado leve de argila expandida, não são apenas um feito estrutural, mas uma manifestação estética que se funde à função. Com capacidade isolante, elas revelam um desempenho térmico admirável, herdeiro das tradições sustentáveis das casas rurais ancestrais. A casa respira, vive e responde ao clima, complementada por um sistema de piso radiante por geotermia que, no verão, é auxiliado por um fluxo de ar resfriado, garantindo conforto em meio ao calor.
A Casa 1627 é, em última análise, um testemunho da habilidade em cultivar um diálogo entre passado e presente, onde a arquitetura se torna uma linguagem poética que narra histórias de permanência, transformação e beleza atemporal.